terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Side of the Road, José Tolentino Mendonça


Ateei o fogo
quebrei as portas de bronze
desfiz sinais nas pedras lisas
enlouqueci os adivinhos

minha língua tornou-se tão estranha
que não se pode entender

as multidões vitoriosas
levantam em teu nome grinaldas
tamboris e danças
despojos de várias cores

tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não têm olhos

in A Estrada Branca, Assírio e Alvim, 2005

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Lembrei-me disto, depois de ter ido ao cinema ver A Estrada





"O mundo actual foi-se exilando do tempo na medida em que tende a viver apenas no presente, que não é verdadeiramente uma dimensão temporal, mas tão somente o ponto de intersecção permanente das extensões de tempo que conhecemos como passado e futuro. No entanto, a vivência actual do tempo não é a da consciência de uma precariedade existencial de raiz, presente no verso de Rilke que nos lembra que «vivemos sobre as vagas e não temos asilo no tempo». É antes a de uma cultura que tende cada vez mais a ignorar o passado (não tem consciência histórica) e vive um futuro incerto ou inexistente, sob permanentes ameaças (...)".
João Barrento, "O Jardim Devastado e o Perfil da Esperança", in O Estado do Mundo, p. 86



Fotos: Paulo Tavares

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Joan Margarit - Casa da Misericórdia


Há pouco mais de hora e meia, Joan Margarit, poeta catalão, deu por concluída a apresentação, na Casa Fernando Pessoa, do seu  livro de poesia Casa da Misericórdia.
Venho de lá com a sensação de ter estado na presença de um dos grandes poetas do nosso tempo. Tudo nele me maravilhou: as ideias profundas e cristalinas sobre a poesia e sobre o mundo; o sentido de humor e a humildade; a forma como lê poesia... E, depois, claro, os excelentes poemas do seu livro. Como este:


Ser Vell

Entre les ombres d'aquells galls i gossos
dels patis corrals de Sanaüja,
hi ha un clot de temps perdut i pluja bruta
que veu anar els infants contra la mort.
Ser vell és una mena de postguerra.
Asseguts a la taula de la cuina
en vespres de braser triant llenties
veig els qui m'estimaven.
Tan pobres que al final d'aquella guerra
es van haver de vendre el miserable
tros de ninya i el gèlid casalot.
Ser vell és que la guerra s'ha acabat.
Saber on són els refugis, ara inútils.


Ser Velho

Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.

Casa da Misericórdia, Ovni, 2009

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Paredes da Tate Modern - 8




domingo, 6 de Dezembro de 2009

Cheira a Lisboa


Alguns dos meus vizinhos aqui do prédio do lado têm por hábito deixar toda a espécie de lixo no passeio em frente de casa - lixo doméstico, roupas e móveis velhos, etc. Hoje, o passeio está ocupado por sofás, cadeiras partidas, um colchão e um caixote de papelão onde, ao longo do dia, os meus vizinhos e os transeuntes têm vindo a colocar todo o género de porcaria (é de salientar que, nem a quatro metros, estão três caixotes do lixo da CML). O que acontece normalmente é que o lixo é ali deixado no passeio, há algumas pessoas a revolverem as coisas, cães a urinarem e defecarem em cima delas, pessoas novamente a revolverem-nas... Uma verdadeira merda.
Hoje, chateei-me e liguei para a PSP para denunciar a situação. Na PSP, direccionaram-me para a Polícia Municipal. Na Polícia Municipal, depois de uns bons minutos em explicações redundantes, direccionaram-me para o Apoio ao Munícipe da CML. No Apoio ao Munícipe da CML, uma gravação informou-me que este serviço só funciona de Segunda a Sábado...
Mais vale estar quieto, ou vale realmente a pena mexer na merda?

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Hoje de manhã a Buchholz era um não-lugar


Ao contrário do que se vinha verificando nos últimos anos de vida da Buchholz, em que, infelizmente, não eram muitas as pessoas que se deslocavam a esta histórica e bela livraria, hoje o n.º 4 da Rua Duque de Palmela estava apinhado de gente. O motivo: saldos. E dos bons(1).
Muita gente a adquirir muitos livros. Em várias circunstâncias, tive de me desviar do sítio onde estava para que outras pessoas, ávidos consumidores (espero que igualmente verdadeiros leitores), pudessem alcançar em primeiro lugar o volume pretendido. Liberal como sou, nem me passou pela cabeça que talvez fosse necessário dirigirem-me um "dá-me licença", ou qualquer outra coisa do género. Afinal, vivemos em não-lugares(2) e uma livraria em saldos, nesta quadra simbólica, é um dos expoentes paradoxais do consumismo.
Tendo comprado uns sete ou oito livros e poupado cerca de 120 euros, deduzo que este post corra o risco de ser também um tanto ou quanto paradoxal.
Vim para casa carregado e feliz(3). O meu orçamento relativo ao PhD agradece.


1 - Depois de, em Janeiro de 2009, ter sido declarada a insolvência, e depois de um negócio frustrado com a Portugália Editores, os activos da Buchholz foram comprados pela Coimbra Editores, grupo que abrirá, em Janeiro de 2010, uma outra livraria naquele espaço. Durante este mês de Dezembro, está a ter lugar a campanha "Livros únicos a preços únicos".   
2 - Para compreender o conceito de "não-lugar", ler o livro Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, de Marc Augé.
3 - A respeito do conceito de "felicidade", aconselho A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo, de Gilles Lipovetsky. A introdução do livro, por si só, é bastante ilustrativa.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Guerrilheiros, pistoleiros e vedetas pop


Até há pouco tempo, era Fidel a grande figura das cimeiras ibero-americanas. Entretanto, parece que o testemunho foi passado ao líder da Venezuela, Hugo Chávez - o grande ausente, como tem sido repetido vezes sem conta na comunicação social. Do país rival da Venezuela surge, entretanto, aquela sobre a qual têm recaído os holofotes mediáticos: sim, Shakira, Shakira.
Peço ajuda para encontrar o vídeo da reportagem que ilustra o ponto alto, até ao momento, de todas estas importantes negociações. É da SIC, julgo, e, no final, um segurança alerta para se ter cuidado "com a perninha" de Shakira, ao fechar a porta do carro onde ela se encontra.