Há pouco mais de hora e meia, Joan Margarit, poeta catalão, deu por concluída a apresentação, na Casa Fernando Pessoa, do seu livro de poesia Casa da Misericórdia.
Venho de lá com a sensação de ter estado na presença de um dos grandes poetas do nosso tempo. Tudo nele me maravilhou: as ideias profundas e cristalinas sobre a poesia e sobre o mundo; o sentido de humor e a humildade; a forma como lê poesia... E, depois, claro, os excelentes poemas do seu livro. Como este:
Ser Vell
Entre les ombres d'aquells galls i gossos
dels patis corrals de Sanaüja,
hi ha un clot de temps perdut i pluja bruta
que veu anar els infants contra la mort.
Ser vell és una mena de postguerra.
Asseguts a la taula de la cuina
en vespres de braser triant llenties
veig els qui m'estimaven.
Tan pobres que al final d'aquella guerra
es van haver de vendre el miserable
tros de ninya i el gèlid casalot.
Ser vell és que la guerra s'ha acabat.
Saber on són els refugis, ara inútils.
Ser Velho
Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.
Casa da Misericórdia, Ovni, 2009